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Milhares de pessoas ficam vulneráveis em Bambari, na República Centro Africana, após acampamento ser destruído e totalmente queimado

21/06/2021
Ex-moradores do acampamento Elevage se refugiaram em mesquitas e comunidades próximas, que estão sobrecarregadas e em condições precárias
Milhares de desabrigados após ataque a acampamento improvisado em Bambari

Vivien Aristide/MSF

Bangui, 17 de junho de 2021 - Cerca de 8.500 pessoas foram expulsas de seu acampamento improvisado em Bambari, na República Centro Africana (RCA), depois que novos conflitos estouraram na região, afirma a organização médica internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF). Milhares de pessoas buscaram refúgio no complexo de uma mesquita na cidade de Bambari, onde estão vivendo em condições muito precárias. O acampamento foi totalmente queimado e um posto de saúde administrado por MSF no local também foi destruído.

Elevage nasceu do conflito brutal que devastou a RCA em 2013-14. Localizado nos arredores de Bambari, uma das principais cidades da República Centro Africana, o acampamento foi buscado por pessoas de comunidades que fugiam de combates em várias áreas. Nos anos seguintes, conforme os períodos de violência se alternavam com fases mais calmas, o local começou a se transformar em uma pequena cidade, com seis mesquitas e centenas de lojas, tendas e outras estruturas montadas pelas 8.500 pessoas que ali viviam.

“Eu me mudei para cá em 2014”, diz Mahmoud, um ex-morador do acampamento. “O local era formado por pessoas deslocadas das cidades de Bria, Kaga-Bandoro, Ippy, Boali, Kabo e Bossangoa que fugiram do conflito armado”.

Não sobrou quase nada

Hoje, não resta quase nada do acampamento Elevage. Todas as tendas foram destruídas no incêndio, enquanto a maioria das construções - casas de um andar feitas de argila ou concreto - estão em ruínas, incluindo um pequeno posto de saúde administrado por MSF. No local, as equipes tratavam semanalmente mais de 200 crianças com malária, a principal doença mortal na RCA, bem como diarreia, pneumonia e outras complicações.

Apenas uma pequena quantidade das construções ainda está de pé sobre o solo vermelho, cheio de tijolos, galhos quebrados, plástico derretido e pertences abandonados. Ninguém permaneceu no acampamento, há apenas o silêncio da floresta que fica ali perto.

Milhares de desabrigados após ataque a acampamento improvisado em Bambari

Confrontos violentos recorrentes

Desde que o conflito na RCA foi reacendido, em dezembro de 2020, em meio ao processo eleitoral, a área de Bambari não foi poupada das tensões que se espalharam por grandes partes do país. Com as ofensivas lançadas contra o governo por uma nova coalizão de grupos armados e a posterior retaliação por parte das forças governamentais, os confrontos violentos têm se tornado recorrentes nos últimos meses.

Um desses confrontos ocorreu na noite de 4 de junho, uma sexta-feira, entre forças do governo e grupos armados não-estatais, nas proximidades do campo Elevage. Segundo relatos de ex-moradores, soldados entraram no acampamento no dia seguinte. No domingo, 6 de junho, uma nuvem de fumaça pôde ser vista saindo da direção do acampamento.

“Eles chegaram no sábado, por volta das 14h, e nos mandaram deixar o local imediatamente”, diz Mahmoud. “As armas foram disparadas para o ar, fazendo com que as pessoas entrassem em pânico e fugissem com pressa para desocupar o local. Os moradores das áreas vizinhas aproveitaram a situação para saquear tudo o que tínhamos. Pegaram nossas cabras à força e roubaram nossos colchões. Pouco depois, o local foi incendiado”.

Estação das chuvas traz riscos adicionais à saúde

A maioria dos ex-residentes de Elevage buscou refúgio na cidade de Bambari, a poucos quilômetros de distância, abrigando-se no complexo da mesquita ou na comunidade anfitriã. Com a chegada do período de chuvas, a falta de abrigo adequado aumenta o risco de contrair doenças como a malária.

“Condenamos a destruição de um local que hospedava pessoas vulneráveis e a destruição de uma unidade de saúde claramente demarcada”, disse Rhian Gastineau, coordenador-geral de MSF na RCA. “Tirados de suas casas e privados de cuidados de saúde, os deslocados estão ainda mais vulneráveis agora do que eram antes”.

“As condições aqui [no complexo da mesquita] são deploráveis”, diz Mahmoud. “Dormimos no chão, sem abrigo, tapete ou tela anti mosquito. Não há comida, latrinas e água limpa suficiente”.

Milhares de desabrigados após ataque a acampamento improvisado em Bambari

Futuro incerto em meio ao conflito

Hamida, que morava com seus 10 filhos no acampamento Elevage, diz que lidar com as novas circunstâncias é muito difícil. “Depois de sermos expulsos do Elevage, fomos de mal a pior. Estamos com medo e perdemos tudo. Meus filhos não têm nada para comer. Sem ajuda, eles não poderão mais ir à escola. Nós não sabemos o que fazer”.

As equipes de MSF em Bambari abriram um novo posto de saúde no complexo da mesquita para tratar pessoas com malária e outras condições de saúde. Os profissionais também montaram um ponto de coleta de lixo, além de estarem orientando os deslocados sobre questões relacionadas à saúde e fornecendo suporte de saúde mental para ajudar as pessoas a lidar com os eventos traumáticos das últimas semanas. Embora equipes de outras organizações também estejam prestando assistência aos deslocados - incluindo água potável para a mesquita, bem como a distribuição de itens de socorro e alimentos de emergência - ainda é necessário muito mais ajuda.

Milhares de desabrigados após ataque a acampamento improvisado em Bambari

“É urgente que mais latrinas sejam construídas e que as pessoas tenham acesso à comida e à água potável”, diz Gastineau. “Também é vital apoiar a comunidade anfitriã, que agora está sob pressão adicional com a chegada massiva de ex-moradores do acampamento. Essas pessoas foram vítimas de violência contínua em meio ao conflito. É essencial protegê-los e, a longo prazo, encontrar um lugar seguro para eles ficarem. Um espaço que seja respeitado por todas as partes envolvidas no conflito em curso”.

“Estamos vivos, graças a Deus”, diz Hamida. “Só espero que um dia a segurança e a paz reinem na República Centro Africana”.

Os nomes das pessoas deslocadas foram alterados para preservar o anonimato.

 

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